Sonrisal, farofa e verde: A crônica do asfalto de Pelotas

Carlos Drummond de Andrade certa vez relatou o nascimento de uma flor entre as calçadas de concreto em uma grande cidade. A flor representava a resistência contra a dureza e mesmice dos centros urbanos, num país que cada vez mais passava a morar nas grandes cidades. Agora em Pelotas fato semelhante, mas que nada tem há ver com a poesia do poeta mineiro, está acontece, só que contornos trágicos: grama e outras plantas estão nascendo no pavimento asfáltico “novo” colocado nas ruas da cidade a cerca de quatro meses, causando um prejuízo de alguns milhões de dólares ao Município.
Pelotas recebeu recentemente um empréstimo de U$ 18 milhões do Banco Mundial para investimento em obras públicas, que somado ao conjunto das contrapartidas chega à US$ 36 milhões. Mas aquilo que surgia como uma esperança para a comunidade, nos últimos meses tem sido objeto de decepção e risos.
A prefeitura realizou a pavimentação de mais de 65 Km de ruas com asfalto, muitas vezes atropelando elementos ambientais e a preservação do patrimônio cultural. Locais onde, desde o final do século XIX havia pavimentação com pedra irregular de granito, agora estão cobertos com asfalto.
Só que o asfalto lançado em toda a cidade durante a campanha eleitoral, e que turbinou a candidatura do atual prefeito à reeleição, simplesmente está cedendo. Várias ruas importantes, como General Osório e Dom Pedro II, com intenso tráfego de veículos pesados, onde antes havia asfalto novo (leia-se 3 ou 4 meses), agora existem verdadeiras crateras, rachaduras e uma imensa quantidade de resíduos de brita e piche. Nos bairros, pavimentados com material de menor qualidade, o famoso “tratamento superficial invertido”, mais conhecido com antipó, o asfalto virou um amontoado de buracos e britas soltas. Em alguns locais, como nas Ruas Gomes Jardim e Apolinário Porto Alegre, o asfalto novo escorreu para os bueiros de drenagem pluvial. Em outras ruas, dentro do centro da cidade, como Professor Araújo, Santos Dumont, Santa Cruz e a própria General Osório, grama está nascendo nos buracos do pavimento, ou rompendo com este (normalmente em virtude da pouca espessura). Tudo isso sob total descaso da administração.
A população, sempre criativa criou três apelidos para o novo pavimento em Pelotas: 1) asfalto sonrisal – por que derrete com as águas da chuva; 2) o asfalto farofa – por que se esfarela ao ser pisado; e 3) o asfalto verde – porque permite o nascimento de grama e plantas.
Tal situação vexatória para uma cidade com quase 400 mil habitantes, e com uma grande importância política, cultural, histórica e estratégica para o Rio Grande do Sul, está amparada em escolhas erradas e irresponsáveis da administração. O asfalto, além de ser um produto poluente, originado do refinamento de um material fóssil escasso, como é o petróleo, e com uma durabilidade relativamente pequena se comparado ao granito – obviamente não levando em consideração a durabilidade do asfalto de Pelotas, mas um período médio de 10 à 20 anos – é um material economicamente inviável para cidade.
Pelotas importa todo o CAP (emulsão asfáltica) de outras localidades. Em contrapartida o granito, utilizado na pavimentação do Centro Histórico, é encontrado nas pedreiras do Município e da Região, em Monte Bonito, Capão do Leão, etc. Em síntese, além de comprometer o Município com um empréstimo internacional, e degradar o patrimônio histórico e ambiental, a prefeitura não pensou nas vantagens econômicas que poderiam advir do empréstimo internacional, situação esta que acrescida aos prejuízos derivados dos buracos e rachaduras do novo pavimento, apenas serve para transformar sonhos em decepção, quando não em caso de polícia.
Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado.
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